Análise – Ford v Ferrari / Le Mans ’66: O Duelo (por Rui Santos)

Realizado por James Mangold (The Wolverine, Logan, Walk the Line), Ford v Ferrari retrata a rivalidade entre as duas fabricantes de carros ao longo dos anos 60. O confronto é iniciado com a entrada da Ford na competição das 24 horas de Le Mans em 1963 e tem o seu clímax na corrida de 1966. Christian Bale interpreta Ken Miles, piloto da Ford, no papel central da narrativa, enquanto Matt Damon o acompanha como Carroll Shelby, engenheiro e designer de automóveis.

As suas performances, nomeadamente a de Bale, são eficazes, fazendo com que seja fácil simpatizar com as personagens. Há um contraste entre estes dois protagonistas, que encaixam perfeitamente num drama baseado em acontecimentos reais, e grande parte das personagens secundárias, que parecem caricaturas da realidade. Sem profundidade ou subtileza, cada uma delas ocupa um papel clássico, específico e imutável ao longo da narrativa.

Henry Ford II (Tracy Letts) é introduzido como alguém imponente e respeitado, mas acaba por ser, desnecessariamente, alvo de gozo em alguns momentos de comédia. Não se volta a sentir o poder da personagem, enquanto Leo Beebe (Josh Lucas) acaba por personificar a interferência da Ford nos planos dos protagonistas, sendo um vilão constante que se torna pouco credível. É como se uma personagem típica de um desenho animado invadisse um drama biográfico. Enzo Ferrari (Remo Girone) é representado como sendo um misterioso Don Corleone dos desportos motorizados, estando sempre a um passo de cair em paródia.

Não faltam clichés na apresentação da narrativa, onde as vivências das personagens são ordenadas e apresentadas de forma tão típica dos dramas de Hollywood que se perde a credibilidade tão importante neste género de filme. Os altos e baixos são definidos sem margem de manobra para várias interpretações ou falhas de compreensão por parte da audiência. Os executivos da Ford, antagonistas, surgem com as suas inconveniências nos momentos mais previsíveis, as cenas entre Ken e o seu filho (Noah Jupe) são fáceis de calcular e Mollie (Caitriona Balfe), mulher de Ken, que é retratada como séria, assertiva e firme na maior parte do filme, emociona-se de modo melodramático num momento de tensão. Tudo isto quebrou a imersão que gostaria de sentir, e não seria preciso arriscar muito para acrescentar alguma profundidade ao filme.

Curiosamente, como vim a descobrir em breves pesquisas após a sua visualização, alguns momentos chave foram completamente fabricados pelos guionistas. Ken Miles, na realidade, correu nas 24h de Le Mans de 1965, e não era necessário alterar este facto para ampliar o conflito. Esta manipulação da realidade, no geral, transparece de forma notável no resultado final.

Parece que só tenho comentários negativos a fazer, mas a verdade é que o filme entretém durante a maior parte da sua duração. Não conhecia estas pessoas e não sabia o que tinha acontecido em Le Mans em 1966, mas faz todo o sentido a história ser contada num filme. É interessante, mesmo para quem não está dentro do assunto, como eu, e tem um final curioso.

A realização e o argumente do filme são isentos de riscos, mas a fórmula que seguem existe por alguma razão, e James Mangold sabe como executá-la. O filme é longo, mas ritmado. O grupo central de engenheiros e a sua missão são cativantes e a comédia espalhada um pouco por todo o filme dá um sabor adicional às interações entre personagens.

As cenas de corrida foram filmadas e montadas de maneira exímia, os efeitos visuais são impecáveis e o som dos carros e dos espaços representados é envolvente. A adrenalina das corridas é bem transmitida e estas sequências fluem bastante bem. Fazem surgir alguma repetição, mas não se tornam aborrecidas e são essenciais. A banda sonora original, com uma sonoridade pós-rock (género no qual instrumentos de rock são utilizados com propósitos diferentes do habitual, focando-se mais em ambientes, textura e timbre), onde as guitarras tomam o papel principal, inclui faixas atmosféricas e calmas e outra mais épicas. Não é brilhante, mas é bem incorporada no filme e, por vezes, chama a atenção pela positiva.

Ford v Ferrari está a ser um sucesso de bilheteira e acredito que vá agradar à Academia, recebendo algumas nomeações aos Óscares, mas não vai ficar para a história. É, no entanto, um filme divertido, com o seu lado mais técnico muito bem trabalhado, desde os efeitos visuais à edição e mistura do som. Fãs do elenco, do realizador ou de carros de corrida podem encontrar aqui duas horas e meia bem passadas.

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Sérgio Batista

Membro do PróximoNível desde 2015. Tira fotos em demasia durante os eventos.

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