Análise – Fire Emblem: Three Houses

No que toca a RPG’s tácticos, poucos me cativam tanto como a série Fire Emblem e o mais recente jogo da série começa por ter um conceito bastante diferente, para a série, mas acaba por ser um dos pontos mais fortes do jogo. O primeiro impacto com Fire Emblem: Three Houses foi estranho, ao contrário dos mais recentes jogos da série que começam de imediato a atirar-nos para o meio de um conflito entre países/facções/famílias aqui começamos por ir para uma escola… onde somos “forçados” a assumir o papel de professor. E este é o início de um ano lectivo bastante peculiar.

Tal como os mais recentes Fire Emblem, temos um personagem a que chamamos nosso, e é com ele ou ela que vamos interagir com os restantes personagens. A início dão-nos algum tempo para conhecer as personagens de cada uma das 3 casas do jogo, depois de escolher qual a casa que vamos orientar não podemos alterar a nossa escolha e a verdade é que à medida a narrativa avança aquilo que começa como uma brincadeira transforma-se em algo bastante sério.

O jogo divide-se então em duas partes, uma primeira parte onde esta temática de escola e vida social domina a história, com aulas, exercícios e mais actividades escolares e uma segunda parte mais próxima daquilo a que Fire Emblem nos habituou. A primeira parte serve como uma exposição do mundo e vai evoluindo lentamente. O tempo avança num sistema de calendário onde os Domingos são tidos como dias livres e servem para explorar e interagir com outras personagens, aceitar missões, realizar mini-jogos e muito chá. Durante a exploração vamos interagindo com as várias personagens e esta componente faz com que seja possível recrutar até alguns alunos de outras casas para a nossa, tudo depende se têm ou não o que é preciso.

Nos dias livres podem também escolher realizar batalhas para evoluir os personagens ou realizar seminários para evoluir certas capacidades das vossas personagens que de outra forma sofreriam um progresso muito mais lento. Durante a semana têm aulas e são vocês que decidem como querem evoluir os vossos alunos, devem ter em atenção o que eles querem, aquilo em que são bons e aquilo que vocês precisam na vossa equipa. Não é difícil manter uma equipa equilibrada, mas existem várias oportunidades de alterar drasticamente o vosso exército.

Dependendo da casa que escolheram no início vão ter acesso a uma história diferente e é aqui que entra o factor repetição. Para realmente perceberem toda a história de Fire Emblem: Three Houses têm que jogar o jogo dos vários lados, pois existem diferenças e as motivações só são reveladas do lado que vocês apoiaram. No meu caso a primeira vez que joguei decidi ficar do lado de Dimitri e dos Blue Lions e a história foi espectacular, posteriormente joguei do lado de Edelgard com os Black Eagles e foi-me possível compreender o lado deles, o que acabou por explicar alguns dos acontecimentos da minha primeira volta com Fire Emblem: Three Houses. Quanto a Claude e os Golden Deer estes ficaram para o fim e lá chegarei, ainda que tenha uma ideia do que me espera. Sem aprofundar muito sobre a história, posso dizer que foi uma verdadeira surpresa ver o desenvolvimento desta. O facto de podermos interagir com as várias personagens nos dias livres e todas as acções que podemos tomar no dia-a-dia fizeram com que realmente me importasse com as várias personagens e o resultado foi que as acções que tomei no campo de batalha e fora dele tiveram muito mais impacto.

No fundo a componente social do jogo evoluiu bastante e não consegui deixar de tecer comparações com a série Persona. Desde o ter de gerir o tempo limitado para as várias acções até às personagens que têm sempre algo a dizer e contam ainda com vozes para todas as conversas, todo o jogo sai a ganhar com esta mecânica que a início parece estar lá para encher. O mosteiro de Garreg Mach acaba por ser um local de exploração livre bastante apetecível. Conforme vão evoluindo a vossa personagem vão aumentando os vossos pontos de acção o que se traduz em mais interacções ou eventos possíveis de realizar por dia e posteriormente isto reflecte-se nas batalhas. Tudo está ligado e tudo faz sentido.

A componente principal de Fire Emblem são mesmo as batalhas e em Three Houses o velho mistura-se com o novo para dar ainda mais profundidade a um sistema complexo mas que pode ser desfrutado tanto por novatos como veteranos. Para os que vão dar de caras com este jogo pela primeira vez o que está à superfície parece bastante simples. Movem as vossas personagens num campo de batalha em grelha e vão eliminar as tropas inimigas. O que torna tudo mais fácil é que podem ter uma previsão do que irá acontecer quando movem as vossas personagens, tudo pode correr bem ou mal posteriormente com a adição das probabilidades de acertar e de ataques críticos. Existem mais sistemas para utilizar mas a troca de armas e dizimar o exército inimigo acaba por ser a parte mais utilizada.

Agora para aqueles que já sabem ao que vão. O triângulo de fraquezas entre armas deixou de estar presente de uma forma clássica, ainda que existam claramente algumas regras do mesmo que continuam em vigor. Devido ao facto de poderem transformar as vossas personagens por completo, vão acabar por ter unidades muito mais versáteis em campo. A adicionar à reintrodução da durabilidade das armas, o sistema de magia deste Fire Emblem funciona por usos por batalha, cada elemento tem direito a X feitiços de cada magia por batalha e renova para a próxima. A isto vamos adicionar um sistema de voltar atrás no tempo para desfazer algum erro que tenhamos cometido, o uso é limitado mas podem aumentar o número posteriormente. Temos também a adição de battalions que têm vários tipos e acabam por ser utilizados tanto por nós como pelos inimigos para destabilizar por completo certos momentos da batalha. Este grupo de soldados acaba por contribuir com vários efeitos que vão desde imobilizar a unidade inimiga a fortalecer o utilizador. Estes têm que ser repostos com cada uso. E ainda uma opção da gambit, que permite um ataque bastante forte mas só pode ser utilizado cerca de um par de vezes por batalha.

O sistema de batalha está mais complexo e existem muito mais nuances associadas que vão poder desvendar conforme forem jogando tais como os benefícios de lutarem lado a lado com alguém com quem nutram uma boa amizade fora do campo de batalha. No início do jogo são convidados a escolher não só a dificuldade mas também se querem ligar o modo de mortes permanentes, e sim isso significa que quando uma das vossas unidades morre, ela desaparece de vez deixando um buraco na vossa equipa e no vosso coração.

Foi ainda adicionado um tipo de inimigo ao jogo que difere e modifica em grande parte a nossa estratégia. Agora existem certos inimigos, normalmente monstros, que precisam de ser derrotados duas ou mais vezes. Estes têm sempre ataques de área ou ataques muito poderosos e uma espécie de escudo que permite absorver mais dano, felizmente podem quebrar o escudo para uma oportunidade de atacar sem que este riposte. No entanto o dano não acumula de uma barra para a outra o que faz com que os atacantes fiquem sempre em desvantagem a menos que consigam derrotar todas as barras de vida num único turno, o que pode ser complicado.

Em termos de aspecto o jogo tem claramente três aspectos diferentes. Durante as lutas, na exploração e nos menus. As lutas e cinemáticas in-game sofrem de fundos pouco trabalhados, especialmente quando comparados com as personagens. Os modelos das personagens são satisfatórios mas longe de serem fantásticos. No que toca à exploração no mosteiro, este é um ambiente completamente tridimensional onde existem algumas quebras de frame rate quando entramos em algumas zonas mais povoadas mas todo o aspecto geral tem uma boa atmosfera. Finalmente no que diz respeito a menus e caixas de texto, estes utilizam retratos das personagens e costumam estar muito bem trabalhados. Deixei para último as cinemáticas pré renderizadas, estas têm um misto de 2D e 3D esquisito. Apesar da arte 2D predominante existem certos momentos que saltam claramente à vista com efeitos 3D sobre o desenho 2D, é simplesmente estranho e a animação também não é a melhor do mundo.

No fundo a apresentação do jogo é bastante boa quando falamos em atmosfera mas os aspectos individuais deixam a desejar. Num jogo como Fire Emblem: Three Houses aquilo que realmente interessa são as várias componentes de jogabilidade e essas estão no ponto. Falta apenas falar sobre a música e as vozes. Quando digo que a atmosfera do jogo é muito boa refiro-me também a estes elementos que ajudam imenso a criar um mundo credível. O facto de termos todos os diálogos falados e não apenas como caixas de texto é muito bem-vindo sobretudo quando existem várias falas para cada personagem mesmo durante as exploração. A banda sonora é bastante boa e desde o toque da “campainha” da escola às músicas que acompanham as batalhas mais temíveis, todas as faixas são espectaculares.

Fire Emblem: Three Houses começa com uma temática estranha mas que rapidamente se entranha. As várias mecânicas funcionam muito bem em conjunto e o resultado final é um dos melhores Fire Emblem de sempre, se não mesmo o melhor. A possibilidade de ver a história de vários ângulos e de interagir de forma diferente com as várias personagens fizeram com que me importasse bastante com cada uma e realmente quisesse saber mais sobre as mesmas. Aquilo que vos espera em Fire Emblem: Three Houses são imensas horas de estratégia e a certeza de que cada hora será bem passada, com mais ou menos mortes… isso depende da vossa habilidade.

Positivo

  • História bem desenvolvida
  • Boas personagens para interagir
  • Sistema de combate melhorado e bem conseguido
  • Possibilidade de personalizar todos os membros do vosso grupo
  • Vozes e banda sonora
  • Tudo o que fazem tem impacto

Negativo

  • Aspecto visual nem sempre está no seu melhor

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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