Análise: Ender’s Game – O Jogo Final

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2013 ficará na memória do Cinema como um ano repleto de ficção-científica. Desde os anos 70 (entusiasmo da hipotética expansão espacial) que um ano cinematográfico não oferecia tantas viagens pelo espaço. Alguns dos projectos serão referências (GRavity) para gerações futuras, enquanto outros esfumar-se-ão no nevoeiro do esquecimento (Oblivion e After Earth).

Já no final do ano chega Ender’s Game, uma obra cinematográfica baseada no bestseller de Orson Scott Card. Uma saga de ficção-científica, que mistura várias temáticas (videojogos, estratégia militar, responsabilidade social e poder), mas que, posso adiantar desde já, vale mais pela mensagem transmitida do que pelo filme propriamente dito.

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Ender Wiggin (interpretado pelo talentoso Asa Butterfield), é um jovem candidato a integrar um grupo de elite militar, preparado para defender o planeta Terra de uma segunda invasão alienígena. Sob a tutela de Colonel Graff (Harrison Ford) e Major Gwen Anderson (Viola Davis), Ender ascende ao patamar de comandante e perfila-se como o estratega perfeito para a missão. O filme conta ainda com Ben Kingsley (Mazer Rackham) e um jovem elenco, onde se destacam as experientes Hailee Steinfeld (Petra Arkanian) e Abigail Breslin (Valentine Wiggin).

Gavin Hood foi o escolhido para realizar o filme. Apesar de projectos menos conseguidos pelo realizador natural da África do Sul (nomeadamente, X-Men Origins: Wolverine), Ender’s Game revela-se um projecto visualmente aceitável, esforçando-se para incorporar a intensidade emocional do texto. Do ponto de vista técnico, os efeitos especiais estão q.b. (o orçamento não tinha muitos zeros), sendo a direcção de fotografia merecedora de atenção especial. Mérito para Gavin Hood na direcção do elenco juvenil.

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Quando toca a adaptar uma obra literária para cinema, muito se argumenta sobre o grau de dificuldade, aliás, é de domínio comum a necessária mestria para segurar numa ideia e emulá-la numa plataforma diferente. O filme de Ender’s Game ficou a maio caminho, o suporte é uma muleta para compreender a mensagem visual de Orson Scott Card, mas o filme teimou em falhar os timings dramáticos da obra literária. O perfil psicológico do personagem de Ender é cinzento – a mio caminho ente Shinji Ikari (Neon Genesis Evangelion) e Colonel Miles Quaritch (Avatar) – apresentando-se como amorfo/confuso, sem qualquer oferta de bagagem emocional que crie laços de empatia com o público.

Os eventos precipitam-se sem frescura de interpretação (só há noção do tempo a passar porque é verbalizado), as situações de perigo não cortam a respiração, enquanto os momentos de “pseudobeleza”, proporcionadas pelo espaço sideral, estão a léguas do que o cinema actual nos oferece. Para desgosto dos fãs de ficção-científica, os momentos de elaboração estratégica espacial e militar ficam a anos-luz de Star Trek.

Ender’s Game estava a ir pelo cano abaixo quando somos surpreendidos pelo final. Existe um dizer em Hollywood que defende a impossibilidade de realizar um bom filme de uma má ideia, mas é possível realizar um mau filme a partir de uma boa ideia. Ender’s Game esteve a construir nos bastidores um clímax emocionalmente fantástico e complexo, transversal à própria realidade do filme. O sabor agridoce a espanto e frustração, deixa a sensação de insuficiência, na medida em que o mastigar da informação por parte da nossa concepção do mundo e das coisas é melhor do que o está a ser apresentado no ecrã. Fica uma oportunidade falhada de alcançar um épico de ficção-científica da literatura juvenil.

ENDER'S GAME

Positivo

  • Videojogos enquanto simuladores da realidade
  • Epifania após clímax
  • Elenco juvenil
  • Material original

Negativo

  • Cliché do escolhido
  • Asa Butterfield não agarrou o personagem
  • Precário encadeamento de eventos
  • Filme maioritariamente insonso

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