Análise – Dynasty Warriors 9

Dynasty Warriors é aquela série de jogos mundialmente famosa por ser adorada ou odiada pelos jogadores. Para quem gosta, este é um jogo sobre a história da China e dos três reinos, onde podemos escolher uma de várias personagens e obliterar hordas de inimigos com o pressionar de alguns botões em combos massivos. Sabemos perfeitamente que quando subimos a dificuldades os generais inimigos conseguem ser implacáveis se não soubermos o que estamos a fazer e o jogo revela que afinal de contas, não é só carregar em dois botões, apesar de a maioria do jogo ser passado a fazê-lo. Depois temos quem não goste por essa mesma razão, é um jogo repetitivo e parece que nunca muda nada nem oferece grande desafio. Este é aquele tipo de jogo que não envolve muito pensamento, a maioria do tempo é passado a carregar em botões e pensar depois.

Mas tal como há gostos para tudo, Dynasty Warrriors foi juntando a sua legião de fãs ao longo dos anos e esta nova entrada na série prometia ser a mais revolucionária desde Dynasty Warriors 3 que adicionou o multi-jogador, estamos a falar do início da era da PS2. Assim Dynasty Warriors em open world parecia uma fantasia tornada realidade, explorar todos os recantos da antiga China como um dos muitos generais que fizeram parte daquela história. “O que é que pode correr mal?” – Pensei eu que ficava espantado com os trailers que ia vendo. Resposta curta: Quase tudo e o multi-jogador até saiu de cena depois de tantos anos embutido na série.

Dynasty Warriors 9 é quase um desastre, não fosse pela forma mais atenta de voltar a contar a história dos 3 reinos, este é um jogo claramente inferior aos seus antecessores. Infelizmente é um jogo que não vai fazer os que não gostam da série mudar de opinião e acaba por vir dividir os que gostam da série. Vamos começar por falar da performance do jogo. Numa PS4 o jogo corre a 900p e constantemente abaixo dos 30 fps se jogarem no modo de acção, se jogarem no modo cinemático, vão ter sorte em ver mais de 20 fps. O modo de acção torna o jogo em algo que consegue ser minimamente controlado, mas muito abaixo daquilo que seria de esperar, especialmente tendo em conta o aspecto geral do jogo é abismal para esta geração de consolas.

Sim, Dynasty Warriors nunca primou por ser bonito, mas não é normal ter um aspecto que no máximo equivale a jogos do início da anterior geração e uma má performance constante, adicionando também alguns bugs de que falarei mais adiante, animações sem grande destaque, sincronização de vozes com os movimentos da boca não condizem com nenhuma das 3 línguas disponíveis sendo elas: chinês, japonês e inglês. Penso que já transmiti a ideia essencial aqui que é: o jogo não está minimamente polido.

Ainda antes de avançarmos para a jogabilidade deixem que vos fale da maravilhosa experiência que é explorar uma China vazia. Vazia de inimigos, vazia de coleccionáveis, vazia de cor, vazia de tudo menos texturas de má qualidade e árvores que fazem do horizonte uma dança tribal de pixeis nos seus ramos. O mundo que temos para explorar e que supostamente é a grande novidade de Dynasty Warriors 9 é exactamente aquilo que está pior no jogo. Qual é o sentido de explorar um mundo vazio? Para quê criar uma imensidão de nada? A única coisa a sair daqui é tempo de jogo passado a ir de ponto A a B sem nada que realmente valha a pena ou seja considerado “divertido”.

O mapa está dividido essencialmente em dois tipos de área. Os caminhos que ligam cidades, acampamentos, templos, fortes ou castelos e a parte “selvagem” do mapa onde não encontramos nada a não ser frustração a subir montanhas enquanto vislumbramos a nossa montada meio enterrada num caminho com declive, animações esquisitas enquanto escorregamos por áreas que parecem transponíveis mas não são, e já referi que os cavalos são capazes de nadar? Tudo isto acontece a partir do momento em que o terreno não é direito, tal como já referi, falta de polimento, ou vendo as coisas pelo lado das montanhas, demasiado polimento já que aquelas encostas escorregam como se tivessem sido besuntadas com margarina.

Vamos então falar do que se passa nas partes que o jogo quer que exploremos. Antigamente existiam mapas com diferentes temas e um labirinto de caminhos que tinha de ser explorado por nós, onde conquistávamos base após base até chegar ao confronto final desse mapa, dizimando centenas ou milhares de inimigos pelo caminho. Em Dynasty Warriors 9 o esquema é mais ou menos o mesmo, existe um caminho de terra batida que liga o ponto em que estamos com o nosso destino e pelo caminho existem pontos de confronto ou bases inimigas. Podem seguir esse caminho e parar momentaneamente para derrotar 3 ou 4 capitães e os seus esquadrões de 50 soldados e continuar o vosso caminho ou, seguir directamente para o objectivo. Resumindo se antes andávamos 100 metros e derrotávamos 300 inimigos, agora andamos 500 metros e derrotamos 50 ou 60. Cada acampamento tem cerca de 1 a 2 minutos de cavalgadas entre eles, o que é bastante aborrecido, mas calma, não vão fazer uma linha recta ou activar o modo de cavalgada automática que mete o jogo em piloto automático até ao vosso destino, terão que fazer desvios para a direita ou para a esquerda para apanhar metais preciosos e ervas para utilizar no fabrico de itens.

Quando estão numa cidade vão poder utilizar várias lojas para comprar ou criar equipamentos e itens novos. Lembram-se dos recursos espalhados pelo mundo? Apanhem tudo o que virem pois para criarem os itens são necessárias quantidades astronómicas de cada elemento, chega a ser surreal. Também é nestas cidades onde podem comprar certas pedras que conferem atributos aos vossos ataques, dependendo da pedra associada a cada espaço livre da arma, assim varia o elemento do ataque. Assim podem comprar estes itens mas também os podem obter através de missões secundárias dadas por aldeões. Estas missões são monótonas, chamar-lhes repetitivas é um elogio. Os aldeões vão pedir para que pesquem, para que derrotem um dado número de animais ferozes ou um grupo de bandidos e pouco mais. Pessoalmente prefiro deixar essas missões para quem tenha um coração forte e coragem para as completar, tal é a emoção.

 

Falta ainda falarmos de um aspecto revolucionário e a razão pela qual sabemos que Dynasty Warriors 9 pertence à actual geração, grappling hooks. Para facilitar a nossa movimentação nas cidades (e ainda bem que adicionaram este sistema, sempre são menos 5 minutos às voltas nos labirintos de paredes iguais umas às outras) podem escalar qualquer parede com o pressionar de um botão, independentemente da altura. Isto oferece algumas novas abordagens às missões mais empolgantes que começam por representar talvez 5% de todos os encontros iniciais do jogo, mas que começam a ser cada vez mais proeminentes consoante avançam pelos 13 capítulos da história. No fundo conforme avançam o jogo vai melhorando a escala das missões e começamos a perceber que existem objectivos principais, objectivos secundários e missões secundárias. Os objectivos secundários para além de poderem desbloquear formas alternativas de encarar a missão principal também baixam a dificuldade da mesma pelo que até se torna engraçado completar estes objectivos, apesar de envolverem cavalgadas intermináveis ou fast travel para áreas próximas.

Graças aos grappling hooks a maioria das missões principais envolve atacar um castelo e podem esperar que as tropas se mobilizem ou escalar as paredes do castelo e abrir caminho até ao vosso alvo. Se conseguirem podem escalar uma muralha sem ser vistos e abrir os portões para o vosso exército ou até tentar passar despercebido até chegar ao vosso alvo. Tirando o facto de podermos ver as fantásticas texturas de má qualidade na grande maioria das paredes enquanto escalamos este é um sistema que precisa de aperfeiçoamento, sendo que a movimentação imprecisa não ajuda em nada estas secções de “stealth”. Não sei se já repararam mas até agora ainda não referi praticamente nada sobre o combate e isso é porque o combate ficou claramente para segundo plano…

Apesar de a grande maioria dos encontros serem pequenas batalhas isoladas, também existem momentos que tentam chegar próximos da reprodução de momentos espectaculares mas não conseguem cumprir com a expectativa ficando a meio caminho. Quando o nosso exército se prepara para atacar um castelo e vemos os aríetes e torres de abordagem a deslocarem-se no campo de batalha parece mesmo que estamos prestes a ver uma batalha fantástica até nos apercebermos que se não formos nós a tirar os inimigos do caminho dessas máquinas de guerra, elas não avançam. É simplesmente ridículo termos um exército que está à espera de nós em todos os pontos do combate.

Neste Dynasty Warriors existe um ciclo de dia e noite e apesar de as implicações serem mínimas, como o avanço das tropas ser afectado pela altura do dia, é possível encontrar uma fogueira ou um restaurante par afazer avançar o tempo. É também possível nestes locais comer pratos especiais que conferem alguns pontos extra aos nossos atributos. Felizmente algo que Dynasty Warriors 9 faz de bem é o sistema de fast travel que permite viajarmos de uma ponta da china para a outra rapidamente e mesmo para alguns locais que não visitámos. Assim fica inteiramente à nossa disposição avançar quase de imediato para o objectivo final ou explorar. A única repercussão que existe é o nível da nossa personagem poder ficar aquém do dos inimigos mas a menos que seja uma diferença superior a 5 níveis, não se preocupem muito com isso.

Ainda antes de falarmos do combate vale a pena falar do sistema de progressão implementado  em Dynasty Warriors 9. Inicialmente têm apenas 3 personagens disponíveis, uma de cada facção inicial: Wei, Shu ou Wu. Conforme avançam nos capítulos e independentemente da facção com que estão a jogar vão desbloqueando outras personagens que historicamente deram início à sua actividade nesse período, ou pelo menos assim o jogo dá a entender. Consequentemente vão desbloquear personagens sem afiliação marcadas como “outras” e uma facção que aparece posteriormente chamada Jin. Ao todo são mais de 90 personagens que partilham os mesmos itens e informações do mapa mas que têm que ser evoluídas de forma separada. No fundo a partilha do inventário facilita a progressão. Posteriormente vão ter acesso ao modo livre e podem jogar com qualquer personagem em qualquer capítulo. Pela primeira vez desde Dynasty Warriors 3 não existe multi-jogador local nem online, este é um jogo exclusivamente para um jogador.

O facto de a acção estar dispersa num mapa gigantesco e cada capítulo se focar numa determinada região ajuda o jogador a explorar certas zonas por fases, no entanto a única coisa que realmente me deu algum alento foi mesmo ver a representação das tropas no mapa mundo a mudar conforme o tempo passa e vermos que os caminhos que fizemos a eliminar as tropas inimigas está agora ocupado pelas nossas tropas. Esta é a única coisa positiva sobre a escala deste novo Dynasty Warriors.

Vamos então falar do combate. Se anteriormente existiam vários combos dependendo das combinações de ataques leves e fortes, agora existem ataques normais e 4 ataques com finalidades especificas. Estes ataques basicamente servem para mandar um inimigo ao ar, mandar um inimigo ao chão, atacar um inimigo no chão ou um ataque característico da personagem que normalmente é um ataque de área. Continuamos a ter ataques pesados mas estes parecem ter perdido toda a sua força uma vez que servem apenas para terminar um combo simples ou tentar partir a defesa, algo que é feito de forma mais eficaz com um dos 4 ataques que já referi. Existe ainda o ataque musou que é o ataque especial de cada personagem. Existem ainda alguns ataques muito específicos que visam a defesa e que honestamente raramente os consegui utilizar, não porque não quisesse mas porque não se proporcionaram ocasiões para tal. Resumindo, o sistema de combate está simples e torna tudo muito insípido quase não sentimos diferença entre personagens.

A juntar ao sistema simplificado de combate temos ainda um toque final que consegue retirar a última barra de vida por inteiro com um só botão. Esta mecânica vem tirar algum impacto às batalhas uma vez que termina os combates sempre da mesma forma, esperamos até aparecer o ícone por cima da cabeça do inimigo e pronto, está derrotado com um botão apesar de ainda ter uma barra de vida inteira. Todas as personagens têm um arco e vários tipos de flechas. Com o pressionar de um botão mudamos para esta arma e apesar de ser útil para matar arqueiros em torres o dano e o tempo que demoramos a disparar as flechas é tão aflitivo que eu só as utilizei quando era mesmo necessário e que virão a descobrir é só quando um inimigo decide ficar preso num local inacessível. Falando em inacessibilidade, a câmara do jogo é bastante proficiente em ângulos que não facilitam em anda o combate, a menos que utilizem o lock on nos inimigos vão encontrar vários momentos em que a câmara não ajuda nada e têm que estar constantemente a ajusta-la manualmente.

 

A banda sonora segue a linha dos jogos anteriores mas com menos impacto. Senti que estava constantemente a ouvir as mesmas músicas e raramente estas se destacavam. Dynasty Warriors vai demorar horas para ser terminado uma vez e centenas para ser concluído a 100%. Os capítulos podem ser terminados em minutos ou horas dependendo da vossa vontade de explorar e no fundo depende mesmo do vocês o tipo de experiência que vão ter. O jogo faz o seu melhor para colocar o jogador no centro da acção, e estamos constantemente a ver o desenvolvimento de várias personagens dentro da nossa facção.

Existe ainda uma outra componente do jogo que se dedica a desenvolver a relação entre generais. Espalhadas pelo mundo existem algumas casas que podem ser compradas, mobiladas e servem como local de encontro entre vários personagens. Conforme vão jogando podem escolher convidar alguns destes personagens e desenvolver uma relação com os mesmos. Esta é mais uma adição que precisa de algum tratamento extra, mas tal como todo o jogo, também esta mecânica parece a fundação para construir algo melhor no futuro.

Depois de todas as horas que dediquei a Dynasty Warriors 9 posso afirmar que em primeiro lugar é um jogo claramente inacabado, existindo imensas arestas por polir. As primeiras horas vão ser uma tortura chinesa e se sobreviverem para lá das 10 horas provavelmente vão começar a ver algumas luzes ao fundo de um longo túnel com más texturas e uma jogabilidade simplificada e insípida que parece querer eliminar a identidade de cada personagem. As cinemáticas no decorrer do jogo ajudam a dar mais profundidade às mesmas enquanto indivíduos mas a jogabilidade acaba por fazer delas clones umas das outras.

Os bons momentos do jogo são muito poucos comparados à imensidão do mundo que temos para explorar e na melhor das hipóteses esta poderá ser a fundação para algo que bem polido e com uma maior variedade de eventos, assim como personagens que realmente se sintam como únicas e um sistema de combate com uma maior flexibilidade (como os anteriores jogos da franquia) poderá vir a ser algo que valha a pena, infelizmente não é o caso, quem sabe numa próxima tentativa. Neste momento Dynasty Warriors 9 é um jogo fraco dentro do género e da saga. É o pior jogo de Dynasty Warriors que eu já joguei e só começa a ser tolerável a partir do 4ª capítulo o que por si só já implica quase duas dezenas de horas de jogo, quebras na fluidez constantes, horas a cavalgar de ponto A a B só para derrotar meia dúzia de inimigos e muito poucas batalhas épicas. Eu gostaria de dizer que estou confiante para o futuro da série mas neste momento temo pelo futuro de Dynasty Warriors.

Pessoalmente espero que o próximo jogo da série, a manter este rumo, o faça com o polimento necessário para ser uma experiência divertida como outrora, pois Dynasty Warriors 9 é uma tarefa interminável e mesmo quando parece que estamos prestes a ser recompensados com bons momentos, existem problemas a sugar a diversão.

Positivo

  • Cinemáticas desenvolvem as personagens de forma positiva
  • Progressão da história e desbloqueio de personagens feito de forma natural e coesa
  • Algumas missões principais conseguem oferecer o fulgor de outrora

Negativo

  • Quebras de fluidez constantes
  • Aspecto datado e insípido
  • Explorar um mundo vazio é uma perca de tempo
  • Combate extremamente simplificado
  • Andar a cavalo em terreno irregular é frustrante  e mostra uma falta de cuidado imensa
  • Bugs ocasionais
  • Não oferece diversão e tudo parece uma tarefa árdua sem recompensa aparente
  • Falta de multi-jogador

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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