Análise – Cinquenta Sombras de Grey – Fifty Shades of Grey

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O maior fenómeno da história recente da literatura chegou ao cinema. O Código Da Vinci da pornografia literária é um êxito de vendas, atingindo, sobretudo, uma franja específica da sociedade, com características e necessidades resultantes da modernidade. A análise a Cinquentas Sombras de Grey – O Filme não é apenas uma análise cinematográfica limpinha, mas um compreensão do contexto social e o entendimento da fórmula criativa que engana o público.

Fifty Shades of Grey faz apenas sentido no século XXI, numa realidade onde o sexo deixou de ser tabu, em que as fantasias sexuais existem sem timidez e são encaradas com naturalidade. Logo, não será de estranhar que a nossa construção mental esteja curiosa em chegar mas longe nos horizontes da construção sexual, invadindo alguns meandros mais controversos.

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Embora a obra seja Cinquenta Sombras de Grey, a história narra a vida de Anastasia Steele (interpretada por Dakota Johnson), uma jovem prestes a acabar a Licenciatura em Literatura. Anastasia incorpora o paradigma da mulher que todos os homens gostariam de conhecer, trata-se de uma pessoa inteligente, tímida e “retro sofisticada”. A vida de Anastasia muda quando conhece Christian Grey (interpretado por Jamie Dornan), um jovem empresário altamente bem-sucedido, que seduz Anastasia, conduzindo a jovem para um carrossel emocional e sexual.

O elenco conta ainda com Jennifer Ehle, Eloise Mumford, Victor Rasuk, Luke Grimes, Marcia Gay Harden, Rita Ora e Max Martini, mas as personagens secundárias são completamente irrelevantes para a história.

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Tendo em conta o conteúdo erótico, e a facilidade em tornar Cinquentas Sombras de Grey no segundo Garganta Funda, a realização de Sam Taylor-Johnson merece destaque, pelo bom gosto e delicadeza com que aborda as cenas de sexo, bem como o fio visual do filme. De facto, os diálogos seriam prescindíveis, não só pela má qualidade dos mesmos, mas pela qualidade da linguagem visual, assente nos silêncios e em olhares que narram por si só a história (extraordinário tendo em conta a origem da obra). Destaque para a iluminação, com tons frios, que puxam para o laranja e vermelho quando a acção e as características dos personagens em evidência assim o exige. Já a banda-sonora é bastante sexy.

Que fique bem claro, eu não li qualquer livro escrito por E.L. James, portanto, é-me impossível comparar o filme com a obra literária. A história tem problemas drásticos na narrativa e na apresentação dos personagens, o que é um desperdício total, porque afectam algumas ideias bastante interessantes. É preguiçoso que Christian Grey seja o estereótipo do filho adoptado que evolui num empresário bem-sucedido com esqueletos no armário (tal como Bruce Wayne, mas sem a queda para combater o crime) e que Anastasia Steele seja o pãozinho sem sal que fica uma beldade quando desamarra o cabelo, pese embora,  haja nuances na protagonista feminina que dão cor ao personagem, como o sentido de humor e a capacidade de tomar decisões (mérito da actriz?). Interessante é o facto de esta relação ser, apesar das cenas de sadismo e do relacionamento pouco ortodoxo, uma história de amor, e este detalhe é fundamental, embora já o tenhamos visto em A Bela e o Monstro.

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Eventualmente, o problema mais grave está nas motivações dos personagens. Sabemos que Grey está a evoluir enquanto personagem porque é o próprio a verbalizá-lo! Essa transformação deveria ser proporcionada com backstory, que nunca vemos, e essa alegada transformação é ainda mais discreta porque o comportamento e postura do personagem é sempre o mesmo em todo o filme. Já Anastasia também evolui pouco, é certo que está sujeita a novas situações e novas experiências, mas o comportamento está de acordo com a essência do personagem que conhecemos na primeira cena. Quando o personagem surpreende na decisão, o resultado é pouco orgânico, porque não está de acordo com o que foi apresentado – se o interesse amoroso é legítimo, porque se deixa encantar com o que o dinheiro pode comprar? Se a personagem é romântica, porque se deixa envolver sem romance?

Fifty Shades of Grey não foi tão mau como eu estava à espera. A realização é boa, e há elementos na história que inovam, embora sejam influenciados por histórias clássicas. A química entre os dois protagonistas existe, embora seja imposta no início. Fica a sensação de que Christian Grey não precisa de uma namorada, mas de um grupo de amigos que lhe dêem uns valentes carolos e o convidem para jogar à bola.

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Positivo

  • Realização
  • Iluminação
  • Timming cómico de Dakota Johnson
  • Motorista de Grey lembra Alfred (Batman)

Negativo

  • O sucesso empresarial de Christian Grey deixa-me deprimido
  • Motivações dos personagens
  • Jamie Dornan é mau actor
  • O mistério é uma boa ferramenta, mas não deve ser aplicada para ocultar as motivações dos personagens, a não ser que haja um twist fenomenal dos filmes seguintes (o que eu duvido, porque precisaria de ser algo genial)

pn-fraco

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