Análise – Blade Runner 2049

Tendo em conta a forma como cinema costuma tratar os seus clássicos, era de esperar que o regresso de algo como Blade Runner fosse alvo de um reboot para as novas gerações não se sentirem confusas ou obrigadas a ver o original com várias décadas em cima.

Quando foi oficialmente revelado, Blade Runner 2049 assustou a maioria dos fãs do original. Afinal, qual seria o destino para um filme tão antigo, numa era em que quase tudo o que é “sagrado” em termos de clássicos pode vir a correr muito mal. Entrei na sala de cinema com receio, mas sai mais do que satisfeito, saí aliviado.

O primeiro Blade Runner continua a ser um clássico e um filme muito à frente do seu tempo, mexendo em temas como o que é ser humano, a evolução da inteligência artificial e o nosso lugar num mundo cada vez mais culturalmente diluído. São temas de grande interesse e que deixam qualquer um a pensar sobre algumas das mensagens que o filme tenta passar entre-linhas.

Por outro lado, Blade Runner também era um filme que se dava a grandes liberdades, sendo majestoso e arriscado em doses iguais. É raro ver um filme dedicado às massas com tanto tempo sem falas ou minutos dedicados apenas ao cenário e à música (aqui com um excelente desempenho dos Vangelis).

É com grande satisfação que posso dizer que Blade Runner 2049 é igualmente petulante e cheio de confiança para mexer com a nossa cabeça e com a nossa capacidade de assimilar coisas que não são comuns num filme. Ou seja, Blade Runner 2049 é uma verdadeira sequela para os fãs e uma viagem dura, mas impressionante para quem não o conhece.

Como sempre as minhas análises evitam qualquer tipo de spoilers e vou pelo mesmo caminho aqui, pois Blade Runner 2049 não merece ser contado, mas visto. Se procuram estar totalmente “limpos” antes de o ver, recomendo apenas que fechem a análise e vejam o filme antes.

Blade Runner 2049 é uma sequela a sério, tendo lugar vários anos depois do original, por isso existem personagens e temas a marcar o seu regresso. Os Replicants (máquinas concebidas como humanos) continuam o centro das atenções, especialmente por ainda haver Blade Runners, ou seja, os caçadores de Replicants. O papel principal cabe aqui a Ryan Gosling, que faz o papel normal de um Replicant sem grandes sentimentos que procura os modelos mais antigos que devem morrer.

Quem não conhece Blade Runner vai ver pensar a principio que os actores podem estar a passar por grandes momentos de apatia, mas Blade Runner funciona mesmo assim. Em vários momentos, o universo do filme parece distante e artificial, mesmo que exista aqui vida e emoções com fartura, especialmente de zonas onde menos esperamos que elas surjam.

Muitos momentos são arrastados em demasia, tal como no original e tenho certeza que os “novatos” vão ficar aborrecidos a meio do filme. No entanto, Blade Runner 2049 não parece achar isso um problema, preferindo agradar a quem realmente o vai ver porque quer.

Como já devem ter percebido, este filme segue o original em quase tudo, por isso podem contar com vários diálogos que parecem não fazer sentido, minutos de personagem X a ir de A a B sem acontecer quase nada e alguns dos momentos mais desconcertantes, mas geniais e provocadores que vi num filme há muito tempo. Existe em especial um momento de intimidade que envolve uma inteligência artificial que foi uma das coisas mais arriscadas, confusas e assustadoramente bem-feitas, que despoletou uma série de questões e dilemas morais na minha cabeça. Isto no bom sentido.

Também ajuda que tenha sido feito um grande trabalho de encadeamento de cenas, iluminação e que todos os actores tenham a noção de que estão a fazer uma continuação para um filme de culto. Claro que alguns momentos foram feitos para ser o mais confusos ou vagos possível, mas é vastamente mais claro que o original.

A narrativa peca apenas em dois ou três momentos, onde coisas são reveladas fora de tempo, coisas mais do que aguardadas parecem levar uma eternidade a acontecer, ou a pista é demasiado óbvia. De resto, podem contar com algumas situações inesperadas e um fio condutor que faz sentido. Lamento também que Harrison Ford não tenha sido uma aparição menos falada, o que nos leva a pensar “finalmente” quando aparece.

Desta vez, a banda sonora não foi criada pelos Vangelis, mas Hans ZimmerBenjamin Wallfisch fizeram um trabalho fantástico, com um misto entre antigo e recente. Destaque vai também para a criação das cidades, especialmente L.A. que está cheia de pequenos sons e barulhos que merecem ser ouvidos com as colunas de uma sala de cinema.

Blade Runner 2049 não é um filme para todos e isso é bom sinal. O trabalho feito por Denis Villeneuve e a sua equipa é uma autêntica homenagem à série e feito a pensar totalmente nos fãs do original. Muitos não vão gostar, outros vão ficar aborrecidos e outros nem vão perceber o que se está a passar, mas é inegável que Blade Runner 2049 é o filme que devia ser e a forma como se mostra firme e confiante nos temas que aborda e da forma como os mostra, é algo que faz falta no mundo do cinema.

É raro termos filmes criados para as massas que arriscam ir além do que é o típico do cinema moderno e pelo que pude ver numa sala quase cheia em estreia, existe público disposto a enfrentar um conteúdo mais complexo para ter uma grande experiência de cinema.

Positivo

  • Boa continuação do original
  • Aproveitamento do universo
  • Actores cumprem bem o seu papel
  • Boa banda sonora

Negativo

  • Alguns momentos que se arrastam por demais
  • Harrison Ford podia ter sido uma aparição mais encoberta

 

Daniel Silvestre

Fã de jogos, filmes, anime e coisas do género. Jogo desde que me lembro e adoro RPG. Tenho uma grande colecção deles que tenciono acabar. Talvez um dia no lar da 3ª idade.

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