Análise – Beyond: Two Souls

Quando Heavy Rain foi lançado ainda nesta geração em exclusivo para a PS3, a minha experiência com este jogo não foi de todo a melhor. Para mim um jogo pode ser cinemático, artístico ou até mesmo estranho, desde que me ofereça uma experiência divertida e interactiva.

Numa posição semelhante a de outros jogadores, considerei Heavy Rain divertido, mas parecia privar-me de muita da interacção e jogabilidade a que estamos habituados e acabava por falhar em várias promessas relacionadas com a escolha do jogador e repercussões sentidas na história.

Beyond: Two Souls prometia alargar o espectro do conceito de experiência cinemática fundida com jogabilidade, e é notório um trabalho desenvolvido nesse sentido, mas no fundo, a linha cinematográfica do ver, acaba por ser bem mais forte do que o fazer típico dos videojogos.

A premissa do jogo é interessante e até bastante promissora. A personagem principal desta aventura é Jodie Holmes (interpretada por Ellen Page), uma rapariga assombrada por uma entidade chamada Aiden que serve como seu guardião e que tenta fazer o melhor por ela, não como um fantasma, mas sim como um amigo.

Em redor de Jodie estão várias personagens com quem esta interage ao longo da sua vida, seja com os seus “pais”, colegas do exército ou vários doutores que estudam a sua ligação a Aiden. Uns tentam ajudar Jodie, outros tentam tirar proveito desta capacidade, levando a pobre criança a passar por vários momentos pesados ao longo da sua vida.

Quando falo em vários momentos não estou de forma alguma a exagerar. Em Beyond: Two Souls vão viver vários momentos chave da vida de Jodie que mostram algumas situações dignas de nota ou que precisam de ser jogadas. Apesar de ser uma forma interessante expor a narrativa, a verdade é que este sistema de saltos temporais acabam por ser mais confusos do que práticos e em alguns momentos servem mais como uma forma de ver que algumas das nossas escolhas tomadas no passado acabam por não ter grandes repercussões na fase mais avançada da história.

Esse acaba por ser outro problema de Beyond: Two Souls. A promessa de podermos decidir o destino da personagem e o decorrer dos acontecimentos tem muito pouca influência na acção e em casos de erro, apenas terão de repetir até correr bem ou o jogo arranja forma de Jodie se safar de uma situação extrema, e tendo em conta que vemos Jodie já adulta em fases iniciais de história, é óbvio que a heroína não morre ou fica incapacitada quando é jovem, o que destrói alguma da possível imprevisibilidade de um guião que está a decorrer.

A Quantic Dream desenvolveu os cenários de forma a que os possam explorar, mas esta é uma liberdade ao estilo do rato num labirinto. Podemos olhar e explorar, mas apesar de todas as dirtacções e objectos com os quais podemos interagir, a saída ou a zona que nos leva a progredir na história é sempre a mesma e por muito que explorem, o caminho será sempre aquele. É uma pena que a vasta maioria das situações me tenham feito sentir assim, e só um ou outro momento provaram que era possível ter mais que uma saída ou opção válida.


Vejam aqui a nossa entrevista sobre Beyond: Two Souls com Guillaume de Fondaumière da Quantic Dream!

Movimentar Jodie é uma mistura entre acção fluída e alguns movimentos corporais estranhos, que nunca consegue estar ao nível de tudo o que são as cinemáticas feitas com o motor de jogo, resultando num cruzamento entre humano e robótico. Felizmente o desaparecimento da vasta maioria dos QTE são realmente um ponto positivo, pois o jogo tenta incentivar o jogador a mover os analógicos ou carregar os botões consoante os movimentos corporais de Jodie. É verdade que nem sempre é fácil perceber como esta se vai mover e o que é mais eficaz, mas acaba por ser bem mais natural e humano e quando corre bem, parece mesmo que somos nós que estamos a decidir o que Jodie vai fazer.

Já com Aiden, a acção fica mais intensa, sendo que podem passear pelo cenário atravessando portas e paredes. Os seus poderes sobrenaturais são realmente úteis, sendo possível interagir com objectos no cenário, estrangular alguém ou possuir uma pessoa para a forçar a fazer o que querem. Só é pena que Aiden seja relegado para segundo plano em alguns casos e alguns momentos chave impeçam que este seja utilizado de todo, ou não possa interagir com um elemento útil do cenário, o que retira alguma força a esta personagem.

Beyond: Two Souls corre num motor de gráfico bastante poderoso e capaz de criar algumas personagens e cenários bastante convincentes. É verdade que algumas personagens ainda continuam a estar presas no “Uncany Valley” (um misto entre real e pouco humano), mas tanto Jodie como Dawkins conseguem ser cópias bastante credíveis de Ellen Page e Willem Dafoe, os dois actores de Hollywood que emprestam a sua imagem e voz para este jogo. Depois, tudo está ligado a uma questão de prioridades, quanto menos importante é uma personagem ou um bocado de cenário, menor é o seu detalhe e utilização de texturas, ou seja, a qualidade oscila entre o melhor da PS3 e o mediano.

Já no que toca à componente sonora, Beyond: Two Souls utiliza uma banda sonora realmente boa e com bastante impacto que ajuda a dar o tom ao nível de Hollywood. Como seria de esperar, o trabalho vocal também está bastante forte no geral, mas é Ellen Page que realmente prova a maior dedicação ao jogo. A actriz tem vindo a fazer uma carreira fantástica na 7ª arte e surge agora no mundo dos videojogos com uma das interpretações mais fortes dentro da indústria e nem mesmo alguns diálogos mais fracos destroem a sua postura e entrega.

Para Portugal a Sony recrutou um grupo de actores de qualidade, como Joana Santos, Rogério Samora, Rui Unas e Ricardo Pereira. No geral, a tradução foi bem feita e caso prefiram jogar em português esta é uma opção válida mas em nenhum momento superior à original.

Beyond: Two Souls prometia muito e de certa forma até entrega. Consegue ser melhor e mais envolvente que Heavy Rain, mas não deixa de ser uma aventura bastante presa e linear. Gosto bastante da introdução de movimentos contextuais na jogabilidade e a história de Jodie é na minha opinião bem mais forte que a de Heavy Rain (já para não falar da prestação de Ellen Page). No fundo, senti-me algo como um visitante num museu de arte, onde podemos ver muito mas nunca interagir além do limite que nos é permitido.

Positivo:

  • Ambiente da história
  • Ellen Page faz um trabalho soberbo
  • Menos Quick Time Events
  • Jodie e Dawkins são boas recriações de Ellen Page e Willem Dafoe
  • Aiden consegue ser uma personagem forte

Negativo:

  • História fragmentada apenas cria confusão
  • Jogabilidade continua a parecer robótica
  • Pouca liberdade de exploração e decisão
  • Aiden é abafado em algumas situações
  • Escolhas com pouco impacto

Daniel Silvestre

Fã de jogos, filmes, anime e coisas do género. Jogo desde que me lembro e adoro RPG. Tenho uma grande colecção deles que tenciono acabar. Talvez um dia no lar da 3ª idade.

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