Análise – Ben-Hur (2016)

Realizador: Timur Bekmambetov
Elenco: Jack Huston, Toby Kebbell, Nazanin Boniadi, Ayelet Zurer, Morgan Freeman, Rodrigo Santoro
Género: Ação, Aventura, Drama
Duração: 2h 5min

Lembram-se daquele filme mítico que era sempre transmitido na televisão durante a Páscoa e durava quase a tarde inteira? Provavelmente estão a pensar em Ben-Hur, ou para ser mais específico, o filme de 1959 realizado por William Wyler. A história do livro “Ben-Hur: A Tale of the Christ“, escrito por Lew Wallace e publicado em 1880, já foi adaptada para filme algumas vezes, e a versão de 1959 é, sem dúvida, a mais marcante. Quando um filme ganha 11 Óscares e é visto por muitos como um dos melhores filmes alguma vez criados, sabes que a fasquia está muita alta para futuras adaptações da mesma história.

Agora chega o realizador Timur Bekmambetov que traz uma nova interpretação do conto clássico de vingança e redenção ao grande ecrã. Eu revi a versão de 1959 uns dias antes de assistir ao novo filme, portanto as comparações foram constantemente feitas na minha cabeça. O resultado final que temos é um filme (muito) mais curto e focado que dificilmente será recordado da mesma maneira que a versão de 1959. No entanto, isto não quer dizer que Ben-Hur seja um autêntico desastre.

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No início do filme, ficamos a conhecer Judá Ben-Hur (Jack Huston), um príncipe hebreu, e o seu irmão adotivo Messala Severus (Toby Kebbell). Aqui temos uma melhor noção do nível de amizade entre os dois antes de Messala partir para juntar-se ao exército romano. Pode não ser completamente necessário, mas acrescenta algo que não havia na versão de 1959. Contudo, o filme tenta apressar um pouco as coisas em algumas partes, como o desenvolvimento amoroso entre Judá e Esther (Nazanin Boniadi), até eventualmente Judá ser acusado falsamente de traição e ser forçado à escravidão pelo seu irmão.

Em comparação à versão de 1959, Judá e Messala são retratados de uma forma um pouco distinta. Judá encontra-se em circunstância diferentes ao filme de 1959 e segue um caminho mais vingativo, enquanto Messala é mais humanizado e transmite menos uma imagem de um vilão que adora ser mau. Outras personagens sofrem algumas alterações, como Esther (Nazanin Boniadi) que tem mais desenvolvimento e envolvência na história, e Ilderim (Morgan Freeman) que passa a ser uma personagem muito mais séria. Tirando Morgan Freeman e mais 2 atores que conheço da série Game of Thrones, o elenco era essencialmente irreconhecível para mim e não estou muito ocorrente dos trabalhos mais recentes dos atores principais, mas fiquei com boa impressão da prestação deles.

Claro que não podia falar de Ben-Hur sem referir o contexto religioso. À medida que acompanhamos a história de Judá, surgem momentos relativos a Jesus de Nazaré (Rodrigo Santoro) que é representado aqui mais como um homem aparentemente normal do que um ser divinal cuja a face nunca era revelada no filme de 1959. Estes momentos não chegam a ser tão intrusivos e prolongados, mas se o objetivo do final era transmitir uma mensagem positiva de perdão e fé, então falhou redondamente e quase arruiná o filme todo. Que final mais ridículo…

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Existe mudanças feitas à história que funcionam bem, como o incidente que causa o aprisionamento de Judá – algo mais aceitável do que meras telhas soltas – e outras que não, como o final que referi. Eu estava mais preocupado com a corrida de quadrigas que é a parte do filme que deram mais destaque, uma vez que é um dos momentos mais memoráveis da versão de 1959. Felizmente, a sequência não foi tão “falso” como temia e é facilmente a melhor parte deste filme. Apenas tinha dispensado os planos filmados com GoPro. Ainda não percebo porque insistem em colocar isso nestes filmes, são mais distrativos do que outra coisa.

Mais uma vez, Ben-Hur não supera o que foi feito antes e não se destaca no panorama atual de filmes de ação. Quem não viu a versão 1959 ou não tem paciência para ver um filme antigo que dura mais de 3 horas e meia, esta é uma opção viável para ficar a conhecer a história de Ben-Hur. Tirando isso, este é só mais um filme destinado a cair no esquecimento.


Opinião extra por Alexandre Barbosa

Existem duas maneiras de ver este filme: se formos às cegas, ou seja, sem ver o filme da década de 50 que é tido em conta como a melhor adaptação da obra original, ou claro está, tendo visto esse mesmo filme. Para quem não tiver visto o filme de 1959, esta nova versão é um filme que ficará uns furos mais acima do que para aqueles que já o tenham visto, isto porque em termos de história o de 1959 fá-lo melhor. No entanto esta nova versão vem com as suas vantagens, sendo visualmente mais apelativo e uma menor duração. Hoje em dia é quase impensável termos um filme de quase 4 horas no cinema e para o melhor ou para o pior Ben-Hur teve que se adaptar e a história sofreu com a menor duração do filme.

Apesar de tudo, não conheço a história original pelo que não posso fazer comparações com o original, mas comparando-o aquela que é considerada a melhor adaptação da obra, Ben-Hur (2016) conta uma história com o mesmo intuito, mas com algumas mudanças que chegam a ser radicais. Como um todo prefiro a história contada em 1959, pois a de 2016 deixa imenso a desejar em vários pontos e a grande maioria das mudanças não correram da melhor forma. Não tenho qualquer problema em ver 3 anos de história a passarem em 2 minutos a ouvir um monólogo, mas desenvolvimentos repentinos nas personagens são outra história.

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Afinal de contas o que trata a história? Resumindo bastante, a narrativa (nesta versão) começa com Morgan Freeman a narrar – deve ser uma clausula do seu contracto em todos os filmes em que participa, e nada contra – e rapidamente são-nos apresentados Judá Ben-Hur, um judeu de uma família abastada e Messala que é romano e foi adoptado pela família de Judá quando era pequeno. Os dois tinham uma excelente relação, como se fossem irmãos verdadeiros, mas depois de um desentendimento Messala acaba por partir de Jerusalém para se juntar às legiões romanas – uma decisão extremamente drástica tendo em conta o contexto em que surge. Mais tarde Messala volta como um capitão romano e mais uma vez através de um evento ridículo – mas melhor do que no original, haja alguma coisa melhor nesta adaptação – vê-se com uma escolha em mãos e opta por ir contra a família que o acolheu o que mais tarde vai gerar um confronto final de quadrigas que vemos nos primeiros momentos do filme. Que é como quem diz, esta é uma história de vingança entre irmãos que envolve muito mais do que eles próprios.

Contudo e dada a era em que vivemos podemos dizer que quando temos cenas de acção pela frente queremos ver algo realmente impressionante e Ben-Hur de Timur Bekmambetov consegue entregar alguma satisfação geral e outras que são julgadas por cada um dos espectadores. Cenas amplas como a visão aérea do Circo de Jerusalém são imponentes e demonstram a necessidade dos romanos em afirmar a sua grandeza, mas quando passamos para a acção em si a história é bastante diferente. A melhor maneira de descrever a grande maioria destas cenas é comparar as cenas de acção com as imagens de uma câmara desportiva ou seja, muito próxima e extremamente saltitante. Existem maneiras melhores de mostrar grandes cenas de acção e enquanto que até aprecio este efeito quando é localizado quando é utilizado em demasia o que acontece é que o nos perdemos facilmente. Como disse cabe a cada um mas na minha opinião existem maneiras de o fazer de melhor forma.

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Falando agora na parte sonora do filme. Este é um dos aspectos que mais gostei nesta adaptação principalmente durante as corridas e na maioria das cenas de acção. O barulho ensurdecedor das colisões e do público ao rubro prevalece e é isso que torna essas cenas mais apetecíveis e de certa forma nos transportam para aquele momento. Quanto aos restantes momentos do filme temos um pouco de tudo. Ainda assim, e num pequeno à parte, é sempre engraçado ver legionários a gritar canções de marcha em latim e falar inglês.

A ideia geral desta nova adaptação de Ben-Hur é que conseguirá agradar a quem não viu o épico de 1959. Mas para quem viu, e apesar do update visual, deixa bastante a desejar em termos de história, sendo que a grande parte das mudanças de uma versão para a outra não beneficia o filme.


Positivo

  • Prestação dos atores principais
  • Corrida de quadrigas
  • Jesus Cristo é um pão

Negativo

  • Não chega ao nível da versão de 1959
  • Banal comparado com filmes semelhantes mais recentes
  • Final

 

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Sérgio Batista

Membro do PróximoNível desde 2015. Tira fotos em demasia durante os eventos.

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Sérgio Batista

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  • Sururu

    Se tiver de escolher um filme para colocar no top dos meus filmes preferidos, não tenho duvidas que é o Ben-Hur.
    Nem sei já quantas vezes o vi. E por cada vez que o vejo, pergunto-me como foi possivel fazer tamanha façanha, tantas decadas a trás. Muito do que é feito hoje, com tecnologias muito mais avançadas e actores dos melhores é uma vergonha comparado com esta obra prima.

    Por essa razão, estou verdadeiramente com medo de ir ver isto…….

    • Kanudo

      Uma vez que tens o filme de 1959 em tão alta consideração, dificilmente vais ficar satisfeito com esta versão moderna, mesmo que assistes com uma mente aberta.

      • Sururu

        E também há o problema do Morgan Freeman, pois estou a ficar enjoado de tanto Morgan.

        • Kanudo

          Eu não tenho problemas com o Morgan Freeman, estou mais enjoado é de o ver sempre no mesmo registo de prestação.