Análise – Beasts of the Southern Wild (Bestas do Sul Selvagem)

Por que motivo Beasts of the Southern Wild está nomeado para o Óscar de Melhor Filme? Talvez a resposta esteja na experiência original que proporciona. Afinal, que “salganhada” de emoções: circula num pequeno espaço físico que serve de metáfora para um universo maior; galga pata o mundo da fantasia para apontar o dedo a problemas reais; utiliza o surrealismo para esmiuçar sentimentos.

Beasts of the Southern Wild consegue ainda atingir o patamar da obra de arte, cada espectador fecha o filme com uma interpretação diferente e só poderíamos perceber exactamente a intenção do filme, perguntando ao realizador estreante: Benh Zeitlin.

Beasts of the Southern Wild conta a história de Hushpuppy (interpretada pela candidata ao Óscar de Melhor Actriz: Quvenzhané Wallis), uma criança órfã de mãe, que vive com o pai de nome Wink (interpretado por Dwight Henry). Os dois habitam numa comunidade à beira rio, bastante supersticiosa e onde a palavra solidariedade é encarada com respeito. Porém o pânico instala-se com o aproximar de uma tempestade, fenómeno que implica cheias naquela região (potenciadas pela construção de uma barragem) e o respectivo desaparecimento da terra que lhes pertence. O filme evolui focado na relação pai/filha, na apropriação do planeta pelo mundo industrializado, na compreensão da ordem natural das coisas, a importância de cada individuo no mundo e na revolta da natureza.

O candidato ao Óscar de Melhor Realizador faz um trabalho notável, é complicado adivinhar o método de captura de imagens ou preparação do dia de gravação, mas Benh Zeitlin é dotado de um timing soberbo de grandeza de plano, não tem complexos em desfocar, tira partido da luz natural e por vezes ignora a quarta parede. Outra opção bastante cativante é a aplicação do jump cut (salto temporal mantendo o mesmo plano). Benh Zeitlin tem também o mérito de dirigir actores sem qualquer experiência profissional, atingindo um resultado ficcionado bastante interessante. Evidentemente que a partir de um certo ponto deixamos de levar o filme “a sério”, mas não invalida o trabalho de direcção.

Quvenzhané Wallis (8 anos) foi nomeada para o Óscar de Melhor Actriz. Convém sublinhar que para cinema é arriscado escrever diálogos e dirigir crianças. Devido à idade não conseguem decorar falas longas, pela inocência, não possuem a experiência para entender alguns estados de espírito, e normalmente só um supertalento sabe representar para a objectiva. Benh Zeitlin teve sempre esta realidade presente e conseguiu escamotear as carências de Quvenzhané e valorizar as virtudes. Quvenzhané tem poucas falas, muitos planos são a jovem natural do Louisiana a ser criança, e a representação fica quase sempre assente na comunicação facial e no olhar. Hushpuppy transmite ira, alegria, coragem, tristeza, compaixão e conformismo sem verbalizar, num registo íntimo e concentrado, que resulta em favor do filme.

Quvenzhané Wallis vai ombrear pelo Óscar com duas das maiores promessas de Hollywood (Jessica Chastain e Jennifer Lawrence), com uma lenda francesa como Emmanuelle Riva e a talentosa Naomi Watts.  Talvez seja uma manobra de marketing Hollywoodesca a nomeação, mas a verdade é que Quvenzhané Wallis já está garantida no filme Twelve Years A Slave, onde contracenará com Brad Pitt e Michael Fassbender.

Quem estiver familiarizado com o trabalho de Hayao Miyazaki (Spirited Away e Princess Mononoke) é capaz de reconhecer alguma influência do legado do animador japonês em Beasts of the Southern Wild, o que levanta alguns problemas. Se por um lado o fantástico de Beasts of the Southern Wild dá brilho à história e reforça a metáfora, por outro os mais conservadores podem torcer o nariz à decisão e sublinhar que há consistência na história por si.

Os únicos problemas de Beasts of the Southern Wild são reféns do orçamento de baixo custo, de algumas ideias vagas que nunca chegam a conectar com o espectador (pecado capital) e a relação mãe/filha, que fica aquém do exigido tendo em conta o momento do filme (quer pelo surrealismo, quer pela força da relação pai/filha).

 

Positivo

  • É um privilégio ir ao cinema e encontrar uma tradução bem-feita do título original
  • Influência Hayao Miyazaki
  • Primeiros 10 minutos e Climax
  • Relação pai/filha

Negativo

  • Simbologia amorfa
  • Inexperiência dos actores
  • Ausência de um fio condutor que permita criar maior empatia com as personagens