Análise – Assassin’s Creed: Odyssey

Depois de ter passado mais de 60 horas com Assassin’s Creed: Odyssey posso afirmar que este é sem sombra de dúvidas o maior Assassin’s Creed até à data mas não é o melhor em todos os departamentos. O ano passado, Origins levantou o véu sobre o novo rumo para a série Assassin’s Creed, mas só agora, com Odyssey, é que a Ubisoft mostrou realmente o que pretendia: um RPG em mundo aberto repleto de conteúdo. Vamos então por partes e vamos começar por falar da história que nos é apresentada de uma forma pouco tradicional.

Ao contrário do que aconteceu até aqui, Assassin’s Creed Odyssey não se rege por uma narrativa fixa, existindo escolhas e consequências das mesmas que alteram o nosso percurso, mas não é essa a parte chave. A história acaba por assentar em 3 pilares principais. O primeiro é a nossa Odisseia, ou aquilo a que normalmente chamamos “História principal”, daqui derivam outros dois pilares. Um deles afecta a história do presente com Layla, o outro coloca-nos no encalço de uma ordem que pretende a dominação do mundo grego. Podem dizer que terminaram a história quando terminarem estes 3 pilares.

Só aqui estão mais de 60 horas, acrescentem exploração e missões secundárias e facilmente aumentam o número de horas. É possível explorarem o mundo todo depois da área de introdução ser concluída é um sistema peculiar mas que ainda precisa de mais polimento, pois o conteúdo secundário é bastante medíocre na sua maioria.

No que à jogabilidade diz respeito, Assassin’s Creed Odyssey segue as pisadas de Origins, existindo aqui uma evolução das mecânicas do mesmo com uma grande diferença no combate. O que se segue é quase um disparate mas é a forma mais simples de explicar o que se passou. Quando falamos em Dark Souls e Bloodborne, todos sabemos que são produtos do mesmo estúdio mas enquanto Dark Souls tem um sistema de combate mais assertivo, Bloodborne é muito mais frenético colocando uma recompensa na ousadia.

Aqui passa-se exactamente o mesmo. Os escudos são algo do passado e o combate é muito mais rápido. Esta alteração é bastante punitiva a início uma vez que as técnicas que a tornam numa opção válida e sólida só são desbloqueadas após umas boas horas de jogo. Explorar o mundo grego é bastante diferente do Egipto de Origins. Não só em termos visuais mas também por culpa do sistema de mercenários que são a invenção mais irritante de toda a série durante grande parte da vossa aventura.

Qualquer acção socialmente negativa aumenta o preço na vossa cabeça, aumentem esse valor e vários mercenários irão ganhar interesse na vossa cabeça. A parte chata deste sistema é que quase tudo aumenta esta barra e para a baixarem só existem 2 maneiras viáveis de o fazer apesar de Assassin’s Creed Odyssey dizer que existem 3. A primeira é pagarem uma quantia para serem ilibados, a segunda é matarem os responsáveis por vos colocarem a cabeça a prémio e finalmente uma terceira hipótese que não funciona pois leva imenso tempo, aguardar que o tempo passe sem levantar problemas.

A parte mais aborrecida do sistema de mercenários é que estes vêm à nossa procura em alturas aleatórias e sempre que sejam vistos em luta ou a infiltrarem-se num local onde não deveriam estar. O resultado é frustrante quando estamos a lutar contra uma dúzia de inimigos, que só por si são autênticas esponjas de dano, e acrescentam mais um ou dois mercenários… Se ainda não perceberam, as coisas complicam-se depressa e cada um destes é uma esponja de dano maior do que a anterior.

Isto leva-me a outra perspectiva do combate, em Origins os inimigos já eram esponjas, mas em Odyssey graças à constante evolução dos inimigos relativamente ao nosso nível, faz com que todos os inimigos levem demasiado tempo a morrer. Eu não estou a exagerar quando digo que por vezes um combate pode demorar 15 minutos. Quando estamos já bastante avançados no jogo o problema mantém-se, mas graças a habilidades e algumas armas que podem obter, tudo acaba por ser mais fácil, mas evitem grandes grupos na mesma especialmente se algum inimigo tiver armas de fogo ou veneno.

As novidades que foram inseridas em Assassin’s Creed Odyssey são várias mas nem todas fortalecem o jogo da melhor forma. Um dos exemplos mais gritantes são as Conquest Battles. Estas lutas gigantescas demonstram todo o potêncial de uma luta entre exércitos mas a sua implementação enquanto mecânica é supérflua. As Conquest Battles não só são incoerentes com a maioria das regiões, dado os requisito para que aconteçam, como são na verdade uma loot box disfarçada. Sempre que concluem um destes eventos é vos atribuído loot de uma dada raridade e essa é a vossa recompensa, pois logo de seguida podem voltar a fazer os preparativos para uma nova Conquest Battle no mesmo território. – Consequências narrativas? O que é isso?

A banda sonora é em simultâneo fantástica e reciclada. Grande parte das faixas que vão ouvir são versões alteradas de clássicos da série, sendo a mais óbvia a clássica “Ezio’s Family“. No geral assenta que nem uma luva, quer seja nos momentos de maior importância onde esta actua como catalisador emocional ou através da sua quase ausência com sons ambientes durante, por exemplo, momentos de exploração. No que a vozes diz respeito as personagens principais estão bem caracterizadas e o sotaque “regional” se é que lhe podemos chamar isso, dá um certo charme.

Outra novidade que não é propriamente nova é a exploração e combate naval. O barco está mais manobrável do que nunca, é bastante fácil e rápido de efectuar manobras apertadas mas é também um sistema que existe e é tolerável apenas pelo contexto. Depois de algumas horas em mar alto fartei-me, deixou de ser divertido e o único incentivo passou mesmo pela possibilidade de adquirir bom loot de outros barcos, de resto sempre que tinha de ir para uma nova ilha tentava sempre que a viagem fosse o mais curta possível.

Não consegui deixar de ficar perplexo com isto, uma vez que outrora este foi considerado um dos sistemas mais divertidos de Assassin’s Creed. O nosso barco serve também de pretexto, como tantas outras coisas em Assassin’s Creed, para coleccionáveis. Para além de poder ser melhorado também podem recrutar personagens que vão conhecendo durante a aventura para o vosso barco e estes em troca trazem uma habilidade com eles. Os coleccionáveis de AC Odyssey são felizmente mais simpáticos do que nos anteriores jogos da série, uma vez que servem um propósito e alguns deles são verdadeiros desafios na forma de npc.

Durante as nossas aventuras vamos encontrar várias personagens com interesses amorosos. Quer estejam a jogar com Alexios ou Kassandra é possível ter romances com todas as personagens cuja opção esteja disponível. Este sistema é bastante bem vindo, dá-nos algo extra com que nos preocupar no jogo e acaba sempre por ser divertido, mas – Tem que haver sempre um “mas” com Odyssey, caso ainda não tenham reparado. – todos os romances sem excepção são na realidade “rapidinhas”. Existem algumas personagens que até exigem algum trabalho mas assim que chegam à parte do romance está feito e é altura de seguir em frente. Não faz sentido, tendo em conta a quantidade de horas investidas em Odyssey, que algo como uma relação amorosa seja tratada desta forma.

Parte da exploração do mundo é também o equipamento, uma vez que este tem um grande impacto na nossa resistência às adversidades. Verdade seja dita que estamos sempre a desbloquear novos itens, desde armas a armaduras. Como as missões e os inimigos acompanham o nosso nível, é relativamente fácil de termos sempre à mão equipamento correspondente ao nosso nível, o que já custa mais é colocar equipamento que já possuímos ao nosso nível actual. Sempre que o quiserem fazer, seja porque é um item lendário ou com efeitos secundários terão que pagar para o fazer e não é nada barato, isto faz com que na sua grande maioria existe aqui uma obrigatoriedade de trocar os itens que temos por outros mesmo que gostem daqueles que estão a utilizar porque a diferença entre níveis é substancial.

Como podem ver pela análise até agora, eu não estou a tecer os comentários mais positivos sobre este jogo e apesar de tudo eu adorei Assassin’s Creed Odyssey. A questão aqui é mesmo essa, eu sou um grande fã de Assassin’s Creed e como tal tenho a capacidade mágica de aturar todos estes aspectos menos bons que para outros jogadores são absolutamente inaceitáveis, afinal de contas o mesmo me aconteceu com outros jogos e sei o que é estar do outro lado da barricada. Quero com isto dizer que Assassin’s Creed Odyssey é um jogo que certamente agrada aos fãs mas tem imensos problemas e eu ainda nem sequer falei da pior parte.

Qual é a pior parte? O jogo é enorme. Isto supostamente é bom, mas não da forma como aqui executado. O grande problema com jogos deste género é que maior nem sempre é melhor. Se olharmos para Skyrim ou The Witcher 3 temos mundos enormes e toda a estrutura criada por estes justifica cada metro quadrado, em Assassin’s Creed Odyssey existem metros quadrados para dar e vender sem bom conteúdo e esta é a raiz do problema.

A Grécia Antiga aqui representada é enorme, existe imensa variedade paisagística, mas também um absurdo de copy-paste. A primeira área que vão explorar é Kephallonia, esta ilha é enorme e é uma das mais pequenas do jogo. Vão passar aqui cerca de 5 a 6 horas, no fundo toda a introdução do jogo. Pela altura que terminei a introdução eu senti que tinha acabado de explorar um jogo inteiro, cada local desta ilha tinha um propósito ou uma missão interessante, foi estrondoso e se todo o jogo tivesse o mesmo cuidado no resto do mapa então estaríamos perante uma obra prima, infelizmente assim que saem desta ilha tudo desmorona.

A partir daqui vão ver 30 templos iguais àquele primeiro com que ficaram maravilhados, talvez mudem as cores e a estátua mas é apenas isso. Vão ver os mesmos celeiros, as mesmas casas, os mesmos fortes até os mesmos penteados uns mais grisalhos do que outros, o que muda é que agora estão numa floresta primaveril, agora estão numa zona árida e agora numa floresta Outonal. As missões secundárias são na sua grande maioria pretextos para explorar um local que fica a 300 ou 400 metros de distância com diálogos e pretextos descabidos. O outro problema é que estas missões não são assim tão secundárias, ou melhor, podem pagar para que estas sejam secundárias.

Para os que não sabem, o nosso personagem pode ir até ao nível 50, altura em que deixa de ganhar exp. o problema é que cada nível demora cerca de uma a duas horas para ser ultrapassado e lutar contra inimigos que estejam 2 ou 3 níveis acima é suicídio. Tanto as missões principais como certas áreas têm um nível recomendado para serem acedidas e muitas vezes existem saltos de níveis entre as mesmas que obrigam a uma exploração e aceitação de missões secundárias para evoluir o que resulta em termos de passar por todas as piores partes de Assassin’s Creed Odyssey.

Pessoalmente não me incomodou, mas para qualquer jogador que esteja a jogar pela narrativa principal e pouco mais, este é um daqueles pontos negativos que pode muito bem ser a diferença entre continuar a jogar ou largar o jogo. No entanto podem simplesmente pagar por um booster de exp. e eliminar grande parte destes sarilhos, é perfeitamente fazível sem o comprar, só vai demorar muito mais tempo para os que querem chegar ao fim da história “rapidamente”.

O jogador pode muito bem abordar as várias situações de várias formas e a história é modificada pelas mesmas mas aqui entra novamente o meu lado de fã de Assassin’s Creed. Se gostam de Assassin’s Creed mas conhecem pouco da história do mesmo, então a história de AC Odyssey é bastante boa, se forem fãs a história é outra. Em termos da narrativa de Alexios e Kassandra a história é uma de vingança familiar no seu núcleo com salpicos de lore de Assassin’s Creed aqui e ali. Em termos de história de Assassin’s Creed, é preciso uma vontade imensa para perceber e retirar todo o partido da mesma e no fim, ficamos a aguardar por uma sequela ou um dos dlc na melhor das hipóteses.

A história contada aqui, e tal como aconteceu em Origins, está a criar ímpeto para algo, só ainda não sabemos bem o quê. De resto esperem pelos habituais aprofundamentos da cultura dos Isu e se quiserem saber porque é que a Senhora Minerva (principal antagonista desde AC3 até Syndicate) já nem sequer é mencionada vão ler as Bd’s. Para mim foi fácil estabelecer um padrão entre todas as informações e perceber o que está a ser transmitido, pelo menos assim o acho, mas é bastante confuso para quem esteja a voltar ou a começar a inteirar-se de Assassin’s Creed, especialmente se não tiverem passado por Origins primeiro. Em suma, tem uma boa história principal, mas quase tudo o que é secundário é de qualidade dúbia tendo os seus momentos aqui e ali.

A nível técnico o jogo mostra algumas falhas, ainda assim as que realmente incomodam são a interacção com vários objectos que obrigam a um posicionamento estranho da câmara, a menos que esteja claramente centrado, muitas vezes não é registada a interacção. Visualmente existem áreas variadas e algumas delas são verdadeiramente impressionantes, a diversidade de cenários no que ao ambiente diz respeito é fantástica.

Como fã, aturei imenso de AC Odyssey, aturei todas as partes menos boas e diverti-me imenso a fazê-lo. Assassin’s Creed Odyssey não é um mau jogo, poderia ser muito melhor se o cuidado tido em Kephallonia tivesse sido tido em todo o jogo, é um RPG sólido em grande parte das suas mecânicas e com imenso para fazer mas que falha em prender a atenção do jogador em momentos secundários. Até pode ser um dos maiores jogos em mundo aberto de sempre, mas claramente não sabe o que fazer com o tamanho que tem.

Positivo:

  • Narrativa principal com diferentes abordagens
  • Personagens interessantes e algumas situações caricatas
  • Ambiente diversificado
  • Sistema de procura e recompensa
  • Muito para fazer…

Negativo:

  • … mas nem tudo vale a pena
  • Conteúdo secundário está lá mas falha em ser interessante
  • Sistema de mercenários precisa de ser ajustado

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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