Análise – A Vida Secreta dos Nossos Bichos / The Secret Life of Pets (por Ana Beatriz Varela)

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Realizadores: Yarrow Cheney e Chris Renaud
Elenco: Louis C.K., Eric Stonestreet, Kevin Hart, Jenny Slate, Lake Bell, Hannibal Buress, Bobby Moynihan
Género: Animação, Aventura, Comédia
Duração: 1h 27min

Tenho uma visão de Cheney e Renaud, numa festa de degustação de London Dry Gins, na penthouse de um arranha-céus, no centro de Nova Iorque, a ter a seguinte conversa:

– “Ah ah, é verdade, é verdade… Oh pá, mas lembras-te do Toy Story?”
– “Claro que me lembro! Foi a primeira longa metragem da Pixar… Esses sacanas…”
– “Sacanas, mas souberam dar a volta à questão.”
– “Qual questão?”
– “O que fazem os brinquedos, quando os miúdos estão fora de casa! Já reparaste que só as crianças é que pensam nisso? Quando chegas a adulto estás-te pouco marimbando para os brinquedos.”
– “É normal. Temos mais em que pensar – o que andarão as nossas mulheres a fazer o dia todo, e os nossos filhos, e se de cada vez que os diretores do estúdio vão à casa de banho irão mudar de ideias sobre a realização dos nossos filmes … Até com os nossos animais de estimação quando estão sozinhos em casa!”
– “É … Espera! O que os nossos bichos fazem quando não estamos em casa?…”
– “…”
– “…”
(em coro) “- IDEIAAAA!” *high five!*

A sério. E acredito que a penthouse tem a mesma decoração da casa dos donos da Gidget.

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Quem tem animais de estimação, de certeza que se questiona várias vezes ao dia sobre: “O que será que ele(a) anda a fazer agora?”. Para além do óbvio (estragar sofás, cortinas, móveis, devastação completa de divisões inteiras da casa, extermínio de sapatos e de outros bens e “batismo ácido” em diversas partes da habitação), não se sabe ao certo como são os nossos animais de estimação, quando estamos fora na escola/trabalho/fora de casa. A não ser que tenhamos câmaras em casa para vigiar e zelar pela sua segurança.

Claramente não é o caso de Katie, uma rapariga de 20 e tais anos, com um emprego, e uma mente aberta, muito querida e simpática. Adora animais, especialmente o seu Max, um Jack Russell Terrier branco e castanho, que ela encontrou num caixote, numa rua de Nova Iorque, e por quem se apaixonou rapidamente. Desde pequeno que MaxKatie sair de casa, todos os dias, e deixá-lo sozinho durante horas infinitas. Não entende porquê, e a ausência dela atormenta-o, deixando-o “a contar as horas” até que ela regresse, sabe-se lá de onde.

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Mas, nem todos os bichos são como ele; regra geral, mal a porta se fecha, têm todos a sua forma única de ser e de estar dentro ou fora de casa. Por muito que amem o dono ou a dona, quando estes não estão, os nossos animais podem ser eles mesmos e até dar umas festas invejáveis!

E por muito dependente que Max seja, ele conta com vários amigos para o ajudarem e o apoiarem – Gidget, uma adorável Pomeranian branca com um fraquinho por ele; Mel, um Pug que detesta esquilos; Buddy, um relaxado Dachshund que adora massagens dadas pela KitchenAid; Chloe, uma gata Tabby obesa, que não quer saber de mais nada a não ser dela mesma e de comida; Sweet Pea, o canário amarelo, que deve ser a única personagem do filme que não fala; Norman, o porquinho da Índia que se perdeu de casa e que não está muito preocupado com o assunto; e Duke, o gigante, desastrado e desgrenhado cão rafeiro, que motiva o desenvolvimento da ação, ao ser adotado pela Katie e apresentado a Max como o seu novo irmão, perante o desagrado deste.

Max não quer nem irmãos, nem mais nenhum animal que possa perturbar o equilíbrio perfeito que ele tem com Katie; portanto, Duke não pode fazer parte da equação. É a partir deste conflito, que a narrativa começa a desenrolar-se. Ambos os cães consideram-se macho-alfa e nenhum deles têm qualquer intenção de se submeter ao outro.

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O início do filme apresenta-nos o ambiente nova-iorquino – a Estátua da Liberdade, a ponte de Brooklyn, os prédios e arranha-céus, o Central Park e a dinâmica das ruas – o qual desperta a curiosidade do espetador, devido aos planos picados, às aproximações e afastamentos de detalhes e à qualidade da imagem, enquanto ouvimos Welcome to New York cantado por Taylor Swift. Mesmo mais à frente, noutras cenas aleatórias de rua, este ambiente continua bem caracterizado, emoldurando a ação de uma forma muito bem conseguida.

Há muitas piadas envolvendo as características típicas dos nossos animais – um cão que urina no chão por causa da emoção, cães que se cumprimentam cheirando os rabos uns dos outros, o típico “nadar à cão”, a indiferença felina contrastando com a dependência canina, gatos gordos dentro de caixas minúsculas ou a brincar com tudo o que mexe, o fascínio dos cães por bolas … – tudo aproveitado de uma forma inteligente e muito engraçada para criar humor.

Por outro lado, pretendeu-se camuflar algumas expressões menos próprias para o público infantil, empregando palavras com sons eventualmente semelhantes, como por exemplo “holy schnitzel”/“holy shit”, e usar insultos básicos nas discussões entre as personagens, como por exemplo “dumb“, “stupid“, “idiot“, para disfarçar a violência teórica excessiva.

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Como já tinha dito mais atrás, as personagens são distintas umas das outras e comportam-se de forma diferente perante os problemas. Temos o caso da Chloe, muito egocêntrica em situações mundanas, mas quando vê um amigo em apuros, incentiva todos os outros animais a saírem da sua zona de conforto para o ajudarem. Esta dualidade integra-se na perfeição, sem qualquer problema a nível de argumento. Realmente, é como se se revelasse o reverso da personalidade fachada.

Gidget possui também esta complexidade; de cadelinha muito fofa, amorosa, atenciosa e extrovertida passa para agressiva, histérica, ameaçadora e, até, violenta, quando Max se envolve em algum problema. Esta complexidade torna Gidget assustadora quando ela passa de um estado para o outro com a maior naturalidade, e a sua voz soluçada e aguda, emprestada por Jenny Slate (Dawn Bellwether, a ovelhinha manhosa de Zootrópolis), assenta-lhe como uma luva.

Snowball, um coelhinho branco com olhos grandes e azuis, é o antagonista principal de A Vida Secreta dos Nossos Bichos. A sua personalidade revolucionária e vingativa é acentuada pela voz de durão emprestada por Kevin Hart. Ver esta coisinha pequena e redonda a liderar os The Flushed Pets, um grupo de animais de estimação abandonados pelos seus donos, uma espécie de rebeldes “feios, porcos e maus”, a protestar contra a domesticação, é, de facto, hilariante! Snowball sabe que transmite uma imagem adorável e utiliza esse trunfo para conseguir o que quer, sem problemas de auto-estima por não ter uma aparência que imponha medo.

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Quanto a Mel e Buddy, não são tão carismáticos quanto Chloe, Gidget ou Snowball, e a sua presença no filme deve ter ficado gravada apenas na memória de quem tem cães daquelas raças. Foi pena não lhes terem dado uma personalidade mais interveniente, que contribuísse mais para a narrativa, em vez de ficarem apenas a fazer de pano de fundo.

Mas, para mim, a personagem pela qual desenvolvi um sentimento de amor/ódio é Tiberius, o falcão. Quando nos é apresentado, está dentro de uma cabana velha, suja e escura, um cenário assustador sugerido pelos esqueletos das suas refeições anteriores. A sua personalidade aparentemente impetuosa, cruel e quase inatingível é desmentida quando se lhe retira a venda e vemos um passarão com olhos enormes e esbugalhados … Quem não se derrete por um par de olhos grandes, regra geral, associados a personagens benfeitoras, sorridentes, adoráveis, meigas? Mas Tiberius, com os seus olhões, ainda conseguiu fazer-me tremer por um instante. O design de personagens manda muito numa animação e acaba por influenciar a forma como a narrativa é vista.

Costuma-se dizer que os olhos são as janelas da alma. Pois bem, há mais um par de olhos grandes, mas, desta vez, assustadores, verdes com uma íris em filete, e que pertencem a Ozone, um gato Sphinx com um sotaque british. Este gato do Mal careca – característica típica dos Sphinx -, cheio de cicatrizes, e comprido como uma serpente, ganha pontos pela voz de Steve Coogan, das terras de Sua Majestade.

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Quanto à seleção musical, é muito variada e agrada a vários gostos, conferindo diferentes ambientes para diferentes situações. Embora algumas sejam apresentadas apenas em pequenos excertos, o filme inclui músicas como You’re My Best Friend dos Queen, Happy de Pharrell Williams, Life After The End Of The World dos Ringworm, No Sleep Till Brooklyn dos Beastie Boys e Party Hard de Andrew W.k., para além da já referida Welcome to New York. A banda sonora original foi composta por Alexandre Desplat, também conhecido por ter composto as músicas para A Rapariga Dinamarquesa, O Jogo da Imitação, Godzilla (2014), Harry Potter e os Talismãs da Morte (partes 1 e 2) e O Estranho Caso de Benjamin Button, entre outros.

A animação tem um visual apelativo e carismático, os animais são encantadores e absolutamente doidos, piadas inteligentes, tanto ao nível verbal como físico e uma história com um final surpreendente (por mim falo).

Para os criadores de Despicable Me, foi algo até relativamente fácil de fazer, embora tenham alargado um pouco as margens da zona de conforto, ao não colocarem personagens inúteis e irritantes para criar “humor” de forma fácil. Embora tenham inserido aquela curta-metragem antes do filme principal que, enfim… Minions não são a minha praia nem a minha definição de hilariante, mas sim de enervante, chato, que se esforça demais para ser engraçado (falhando redondamente), e com graves problemas de fala e problemas psicológicos com um certo tipo de fruta. Portanto, Cheney e Renaud, obrigada por não colocarem em A Vida Secreta dos Nossos Bichos esse tipo de personagem/humor barato.

Tenho de confessar que a principal razão pela qual fui ver o filme está relacionada com o fantástico trailer que saiu em Junho de 2015. Digam lá se não é espetacular! Ao levantar um pouco o véu sobre o que os nossos amigos de duas ou quatro patas fazem em casa quando não estamos (comer um frango inteiro do frigorífico, fingir que voam com os aviões que aparecem na televisão, receber massagens de robôs de cozinha ou, então, chegar à aparelhagem e mudar a música de Vivaldi para System of a Down,…), tudo ao som de Do Your Thing dos Basement Jaxx, uma música eletrónica já com dezasseis anos, muito animada e mexida, quase com sabor a ruas de Nova Iorque, seria impossível não despertar o mínimo interesse por algo tão diferente e doido, e que os realizadores fizeram questão de manter no filme do início ao fim.

Há personagens animais secundárias que não cresceram na narrativa, sendo, portanto, facilmente olvidáveis, uma vez que a história foca muito mais a interação entre Max e Duke. Mas até estes não escaparam a problemas narrativos, pois, apesar dos ambientes criados para ambos, tanto de adversidades, como de cooperação, certas partes da história soam como “fillers”, ou então, os animadores estavam mais a divertir-se do que outra coisa. Assim, não foram propriamente elementos decisivos para o desfecho da ação, ajudando apenas a compreender determinados perfis e historiais.

Pareceu-me igualmente que a intenção do filme não é tanto a de fazer passar uma mensagem clara, mas sim a de nos fazer rir, ao mesmo tempo que nos ensina a saber viver com a diferença, a não sermos egoístas e, consequentemente, a aprender a partilhar. Quase como um complexo entre irmãos/família ou amigos. Não tendo o mesmo nível de profundidade de Zootrópolis, nem psicológica, nem de personagens, é mais para dar umas gargalhadas do que propriamente para pensar em situações complexas. Para quem tiver expectativas com o trailer, haverá, por certo, uma sensação de quase desilusão ou engano. Quem não estiver nessa situação, e for um amante de animais, prepare-se para um fartote de rir!

Positivo

  • A cada personagem é atribuída uma voz muito personalizada, com sotaques característicos variados, conferido assim personalidade e singularidade a cada uma;
  • Gidget e Chloe;
  • A triste realidade dos animais abandonados;
  • Pluralidade de raças;
  • Fator “Awwww!”;
  • Humor variado e apropriado;
  • A lealdade deve estar sempre acima da nossa zona de conforto.

Negativo

  • Sendo Max e Duke figuras pouco interessantes e carismáticas, não dão boas personagens principais;
  • Sweet Pea tem como atriz de voz, a mítica Tara Strong (Lemmy e Iggy em Super Mario World, Bubbles em The Powerpuff Girls, Timmy Turner em The Fairly Odd Parents, Terrence em Fosters Home for Imaginary Friends e Twilight Sparkle em My Little Pony: Friendship Is Magic… Tanto talento só para fazer “piu”!);
  • Certos pontos na narrativa carecem ou de explicação ou de historial;
  • Criou-se muita hype a nível de marketing de comunicação;
  • Pouca exploração do comportamento afetivo e emocional entre os animais de estimação e os respetivos donos;
  • Tirando a história principal, não se compreende o que é que é tão secreto na vida destes bichos.

 

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Ana Beatriz Varela

Vinda do Espaço Sideral, interessa-se pelo fenómeno da Cultura Pop em todas as suas vertentes. Ainda não percebeu o conceito "sociedade".

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